Antes de comparar as lentes, vale fixar o que cada uma se propõe a resolver. A lente monofocal é o padrão de referência. Corrige o erro esférico e oferece um único ponto focal, em geral otimizado para longe, deixando o paciente com boa visão de distância e dependente de correção para perto. É previsível, tolerante a pequenas imprecisões e de excelente qualidade óptica. A lente tórica é, em essência, uma monofocal que corrige também o astigmatismo corneano regular. Para o paciente com astigmatismo significativo, ela entrega uma visão de longe nítida sem depender de correção cilíndrica, algo que a monofocal comum não alcança.
O critério central: quanto de astigmatismo corneano
A indicação da tórica só se justifica diante de astigmatismo corneano regular relevante. Na prática, a indicação ganha consistência a partir de aproximadamente 1,0 dioptria de astigmatismo corneano, embora alguns cirurgiões considerem o limiar de 0,75 dioptria conforme a plataforma de lente disponível. Abaixo desse patamar, o ganho tende a não compensar o custo adicional nem o risco associado à rotação da lente.
Há um detalhe que costuma confundir o iniciante e merece destaque. O que orienta a decisão é o astigmatismo corneano, e não o astigmatismo refracional total do paciente. Parte do cilindro presente na refração pode ter origem no cristalino, e esse componente desaparece com a cirurgia. A indicação, portanto, deve apoiar-se na ceratometria e na topografia, não na refração de óculos.
Por que a biometria e a topografia são decisivas
A tórica é tão boa quanto a medição que a precede. Antes de indicá-la, o cirurgião precisa de uma ceratometria confiável, idealmente com duas medidas independentes que concordem entre si, e de uma topografia ou tomografia de córnea que confirme a regularidade do astigmatismo e afaste ceratocone, degeneração marginal pelúcida ou cicatrizes. A avaliação do astigmatismo posterior da córnea, hoje incorporada aos principais calculadores tóricos, é igualmente importante, e ignorá-la é uma causa clássica de sobrecorreção em córneas com a regra. Por fim, a superfície ocular precisa estar saudável, porque olho seco e disfunção das glândulas de meibomius distorcem a ceratometria. Quando há doença de superfície, o correto é tratá-la antes de medir.
O ponto frágil da tórica: o alinhamento do eixo
Uma lente tórica só entrega o resultado planejado se for posicionada no eixo correto e permanecer nele. Cada grau de desalinhamento reduz em torno de 3 por cento do efeito de correção do cilindro, e uma rotação de cerca de 30 graus anula praticamente todo o benefício, podendo deixar o paciente em situação pior do que estaria com uma monofocal. É por isso que a estabilidade rotacional e a precisão da marcação do eixo são tão determinantes.
Esse desempenho exige uma cápsula bem construída, e aqui a técnica cirúrgica influencia diretamente o resultado refracional. Uma capsulorrexe centrada e sobreposta à óptica contribui para a estabilidade da lente, a remoção cuidadosa do viscoelástico de trás da lente evita a rotação no pós-operatório imediato, e a marcação do eixo, manual ou por sistemas de orientação intraoperatória, precisa ser exata. Em poucos passos da cirurgia a destreza do cirurgião se traduz tão diretamente em dioptrias quanto neste.
Quadro de decisão
| Situação do paciente | Tende a indicar |
|---|---|
| Astigmatismo corneano abaixo de 0,75 D | Monofocal |
| Astigmatismo corneano regular de 1,0 D ou mais, com desejo de menos óculos para longe | Tórica |
| Astigmatismo irregular, ceratocone ou cicatriz corneana | Monofocal, com cautela quanto à tórica |
| Comorbidade que limita o potencial visual, como maculopatia avançada | Monofocal |
| Ceratometria e topografia que não concordam | Refazer os exames antes de decidir |
| Prioridade em previsibilidade e custo | Monofocal |
Como conduzir a conversa com o paciente
A melhor conversa é honesta e centrada no estilo de vida, e não na ideia de lente premium. Vale perguntar o que o paciente mais valoriza, seja dirigir sem óculos, simplicidade ou custo, e explicar que a tórica pode reduzir a dependência de óculos para longe quando há astigmatismo, mas que mesmo com a tórica ele provavelmente usará correção para perto. É importante deixar claro que a monofocal é uma excelente escolha, e não um plano alternativo inferior.
Gerenciar a expectativa é parte do resultado. Um paciente bem informado que opta pela monofocal sai satisfeito, enquanto um paciente que esperava nunca mais usar óculos sai frustrado mesmo após uma cirurgia tecnicamente perfeita.
Seja monofocal ou tórica, o resultado depende de uma cirurgia limpa: capsulorrexe centrada e sobreposta, remoção completa do viscoelástico e implante estável no saco. Com a tórica, a margem para imperfeição é ainda menor.
O denominador comum: a técnica
Qualquer que seja a lente escolhida, o resultado refracional se constrói sobre os mesmos fundamentos: uma capsulorrexe centrada e sobreposta à óptica, a remoção completa do viscoelástico e o implante estável no saco capsular. Com a tórica, a tolerância a imperfeições é menor ainda, porque o benefício depende da estabilidade rotacional. Dominar esses passos com segurança, antes de aplicá-los ao paciente, é o que separa um resultado bom de um resultado excelente. Os olhos artificiais Rexis permitem treinar a capsulorrexe e o manejo do saco capsular em casa, consolidando justamente a base técnica de que tanto a monofocal quanto a tórica dependem para entregar o melhor resultado.
A base de um bom resultado refracional é a técnica
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Ver os pacotes de olhosReferências e leitura adicional
- Koch DD et al. Contribution of posterior corneal astigmatism to total corneal astigmatism. J Cataract Refract Surg.
- American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course, Lens and Cataract.
- Visser N, Bauer NJC, Nuijts RMMA. Toric intraocular lenses, historical overview and current outcomes. J Cataract Refract Surg.