Antes de percorrer os instrumentos, vale enfrentar a decisão que atravessa toda a montagem: reutilizável ou descartável. O instrumental reutilizável, em aço inoxidável de qualidade cirúrgica, exige investimento inicial mais alto, mas tem custo por procedimento muito baixo e vida útil que se estende por anos com manutenção adequada. O descartável tem custo unitário maior, porém elimina o risco de contaminação e chega sempre afiado, o que o torna atraente para serviços de alto volume ou centros sem central de esterilização ideal. A maioria dos cirurgiões adota uma solução híbrida, mantendo reutilizáveis os instrumentos críticos, como fórceps e choppers, e descartáveis as lâminas e cânulas.

A incisão principal e a paracentese

O keratome, por vezes chamado de slit knife, é a lâmina que cria a incisão principal por onde passam os instrumentos da facoemulsificação. A largura padrão da faco moderna situa-se em torno de 2,75 mm, com variantes menores para microincisão, e a angulação costuma variar entre 45 e 60 graus. A qualidade do corte e a geometria da incisão influenciam diretamente a estanqueidade da câmara durante a cirurgia, o que faz desse instrumento um item em que economia mal calculada cobra caro.

A lâmina de paracentese, frequentemente uma MVR, cria a incisão secundária, de cerca de 1 mm, por onde entram os instrumentos auxiliares como cânulas e choppers. O diâmetro e a angulação devem ser escolhidos de modo a permitir manipulação confortável do segundo instrumento sem comprometer a vedação.

O instrumento da capsulorrexe

O fórceps de Utrata é o instrumento da capsulorrexe contínua curvilínea, e poucos itens da bandeja têm impacto tão direto sobre a segurança da cirurgia. Suas pontas finas e levemente curvas permitem a pega precisa da cápsula que a rexe exige. É justamente aqui que a economia mal orientada mais prejudica, porque um fórceps de baixa qualidade não oferece a precisão de pega necessária, e o residente acaba treinando e executando um gesto que não corresponde ao ideal. Vale tratar esse instrumento como um investimento de longo prazo, em aço de boa procedência.

A fragmentação e a manipulação do núcleo

Concluídas a capsulorrexe e a hidrodissecção, o chopper participa da divisão do núcleo em fragmentos menores. Há diferentes desenhos, alguns mais voltados à técnica clássica e outros mais agressivos, indicados para núcleos densos, e a escolha acompanha a técnica de fragmentação que o cirurgião adota. As espátulas, instrumentos finos para manipulação delicada de tecidos, completam o conjunto de manipulação do segmento anterior.

Hidrodissecção, aspiração e implante

A cânula de hidrodissecção, acoplada à seringa, conduz a onda de fluido que separa o núcleo do córtex e viabiliza a rotação livre da catarata. A cânula de Simcoe, por sua vez, permite a irrigação e a aspiração manual do córtex residual sem o facoemulsificador, e ganha relevância em três cenários: o treino em wet lab, a cirurgia em serviços que não dispõem de máquina e a situação de contingência diante de uma falha do equipamento. O injetor de lente carrega e implanta a lente intraocular dobrada pela incisão principal, e existe tanto na versão descartável quanto na reutilizável em titânio.

Exposição e alinhamento

O blefarostato mantém as pálpebras afastadas durante a cirurgia, garantindo um campo estável, item simples cuja ausência ou inadequação compromete toda a ergonomia do procedimento. O marcador de eixo, por fim, é indispensável quando se implantam lentes tóricas, porque o benefício refracional desse tipo de lente depende do alinhamento preciso no eixo planejado.

A bandeja de catarata se organiza em torno de poucos instrumentos verdadeiramente críticos. Investir bem no fórceps de capsulorrexe e no keratome, e tratar lâminas e cânulas como consumíveis, costuma ser a divisão de recursos mais sensata.

Cuidados que preservam o instrumental

A durabilidade do instrumental reutilizável depende menos da marca e mais da rotina de cuidado. Após cada uso, recomenda-se a lavagem em água destilada, o emprego de detergente enzimático específico para instrumental cirúrgico e a secagem completa antes da esterilização. A esterilização por autoclave a vapor é o padrão, e os instrumentos finos, como o fórceps de Utrata, exigem suportes apropriados que protejam as pontas, porque é nelas que reside a precisão que justifica o investimento.

Conhecer o instrumento não substitui treinar com ele

Reconhecer cada instrumento e entender sua função é o primeiro passo, mas a familiaridade que conta na sala cirúrgica nasce do uso repetido. Saber, pelo tato, como o fórceps de Utrata responde à pega da cápsula, ou como a cânula de hidrodissecção se posiciona sob a rexe, é uma competência que se desenvolve manuseando o instrumento contra um tecido que se comporta como o real. Os olhos artificiais Rexis oferecem exatamente essa cápsula sintética de comportamento previsível, permitindo treinar com o instrumental em casa antes de levá-lo ao paciente, com o passo a passo da cirurgia incluído em cada compra.

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Referências e leitura adicional

  1. American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course, Lens and Cataract.
  2. Steinert RF. Cataract Surgery, techniques, complications and management.
  3. Diretrizes de processamento de produtos para saúde, normas de esterilização de instrumental cirúrgico.