A hidrodissecção consiste na injeção de uma onda de solução salina balanceada entre a cápsula e o córtex, com o objetivo de separar o complexo núcleo-córtex do saco capsular. O resultado é um núcleo solto, capaz de girar livremente, que pode ser emulsificado sem arrastar a cápsula. É importante não confundir a manobra com a hidrodelineação, que separa o núcleo endurecido do epinúcleo mais mole e cria o sinal do anel dourado. São manobras complementares, com objetivos distintos, e confundi-las na execução é uma das causas de hidrodissecção malsucedida.

O motivo pelo qual esse passo é tão decisivo está na mecânica da operação. Um núcleo que não gira força o cirurgião a manobras compensatórias, e força aplicada sobre o saco capsular é justamente o que tensiona as fibras zonulares e aproxima o caso da ruptura de cápsula. Vista por esse ângulo, a hidrodissecção eficaz é antes de tudo uma medida de proteção zonular, e não apenas um passo de conveniência.

A sequência, passo a passo

1. Preparo da cânula e do fluido

Utilize uma cânula de hidrodissecção, tipicamente de calibre 27G com ponta achatada ou angulada, acoplada a uma seringa com solução salina balanceada. Encha o sistema por completo e elimine toda bolha de ar. Uma bolha injetada sob a cápsula prejudica a visão e pode mascarar a passagem da onda de fluido, que é o sinal que você precisa enxergar. O controle da injeção se faz com o polegar, de forma graduada. O que produz a hidrodissecção não é o volume injetado, é a propagação da onda no plano correto.

2. Posicionamento sob a borda da rexe

Eleve discretamente a borda da capsulorrexe anterior e deslize a ponta da cânula logo abaixo dela, em direção à periferia, sem aprofundar. A ponta precisa ficar no plano entre a cápsula e o córtex, e não dentro do núcleo, sob pena de produzir uma hidrodelineação acidental. Antes de injetar, avalie a tensão da câmara anterior. Se o viscoelástico a deixou hiperinsuflada, descomprima parcialmente, porque uma câmara excessivamente tensa é fator de risco para o bloqueio capsular descrito adiante.

3. Injeção lenta e leitura da onda

Injete de modo lento e contínuo, observando a onda de fluido que desliza sob o reflexo vermelho e contorna o núcleo. Essa onda visível é o sinal clássico de que o plano de clivagem correto foi alcançado. Assim que ela passa, faça uma leve depressão no centro do núcleo para permitir que o fluido aprisionado escape por cima. Essa manobra de descompressão, conhecida pelo termo burp, evita o acúmulo de pressão atrás do núcleo, que é a origem da complicação mais temida desse passo.

4. Confirmação pela rotação

O teste final é direto. Com a própria cânula ou com um segundo instrumento, tente rodar suavemente o núcleo. Se ele gira com liberdade nos 360 graus, a hidrodissecção está completa. Se resiste ou trava em algum ponto, o córtex permanece aderido ali, e a conduta é reposicionar a cânula em outro quadrante e repetir. Não se força a rotação de um núcleo que não foi liberado, porque é exatamente nesse momento que a zônula sofre.

Elimine o ar, posicione a ponta sob a rexe, injete devagar acompanhando a onda, descomprima com o burp e confirme com a rotação livre. Onda visível somada a rotação completa significa hidrodissecção concluída.

Os erros que mais comprometem o passo

ErroConsequênciaCorreção
Injetar com a câmara hiperinsufladaPressão posterior e risco de bloqueio capsularDescomprimir antes e injetar lentamente
Volume ou pressão excessivos de uma só vezBloqueio capsular, prolapso do núcleo, rupturaOnda lenta seguida do burp
Cânula profunda demais, dentro do núcleoHidrodelineação acidental, núcleo não soltaManter a ponta no plano subcapsular
Encerrar na primeira injeçãoCórtex aderido e núcleo que não rodaHidrodissecar em mais de um quadrante
Não testar a rotaçãoEstresse zonular nas manobras seguintesConfirmar sempre a rotação de 360 graus

O evento mais temido é a síndrome de bloqueio capsular. Nela, o fluido injetado fica retido atrás do núcleo, a pressão intracapsular se eleva e pode empurrar o núcleo para frente ou romper a cápsula posterior. Trata-se de uma complicação quase sempre evitável com dois hábitos: a injeção lenta e a descompressão pelo burp após a passagem da onda. Em olhos pequenos, com câmara rasa ou com pseudoesfoliação, a cautela deve ser redobrada, porque a margem de segurança é menor.

Por que a hidrodissecção se aprende com a mão, não com a leitura

A hidrodissecção é, fundamentalmente, uma questão tátil. A percepção da onda que se propaga, a leitura do momento exato de interromper a injeção e a confirmação da rotação são sinais que nenhum texto consegue transmitir. Eles se constroem na repetição, sentindo a resistência do tecido e calibrando a pressão do polegar até que o gesto encontre o ponto certo entre o insuficiente e o excessivo. É precisamente o tipo de habilidade que ganha em ser treinada antes do centro cirúrgico, num ambiente onde o erro não tem consequência.

Os olhos artificiais Rexis permitem repetir o ciclo de manobras, do posicionamento da cânula à leitura da rotação do núcleo, em sessões curtas e quantas vezes for necessário. Quando o gesto se consolida como memória muscular, a hidrodissecção deixa de ser o passo em que o residente prende a respiração e passa a ser um momento de controle dentro da cirurgia.

Treine o gesto da hidrodissecção quantas vezes precisar

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Referências e leitura adicional

  1. Vasavada AR, Singh R. Step-by-step hydrodissection and hydrodelineation in phacoemulsification. J Cataract Refract Surg.
  2. American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course, Lens and Cataract.
  3. Yeoh R. The capsular block syndrome: recognition and prevention. Eye.