Os dispositivos viscocirúrgicos oftálmicos, conhecidos pela sigla inglesa OVD, são soluções viscoelásticas cuja função é manter espaços, proteger tecidos e estabilizar a câmara durante a cirurgia. Todos derivam de poucas famílias químicas, sobretudo o hialuronato de sódio e a hidroxipropilmetilcelulose, mas se comportam de formas muito diferentes conforme seu peso molecular e sua concentração. Esse comportamento é descrito por três propriedades reológicas que vale a pena compreender, porque delas nasce toda a distinção prática entre os agentes.
Três propriedades que explicam tudo
A primeira é a viscosidade a zero cisalhamento, que traduz a capacidade do material de manter espaço quando está parado. Quanto maior essa viscosidade, mais o agente sustenta a câmara e afasta estruturas. A segunda é a pseudoplasticidade, a propriedade de reduzir drasticamente a viscosidade sob alta taxa de cisalhamento, ou seja, quando forçado através de uma cânula fina ou submetido ao fluxo da faco. Um material muito pseudoplástico flui fácil quando empurrado e volta a enrijecer quando em repouso. A terceira é a coesividade, a tendência das moléculas de permanecerem unidas e saírem juntas quando aspiradas, em oposição à dispersividade, a tendência de se fragmentarem e revestirem superfícies, resistindo à remoção.
Dessas propriedades emerge a divisão clássica em dois grandes tipos, cada um com uma virtude e o custo dessa virtude.
Coesivo: mantém espaço, sai fácil
Os viscoelásticos coesivos, tipicamente hialuronato de alto peso molecular em alta concentração, têm alta viscosidade a zero cisalhamento. Eles criam e mantêm espaço com excelência: aprofundam a câmara, aplainam a cápsula anterior para a rexe e afastam estruturas com firmeza. Como suas moléculas permanecem unidas, saem em bloco quando aspiradas, o que torna a remoção ao final da cirurgia rápida e completa, reduzindo o risco de pico pressórico pós-operatório por retenção. O custo dessa coesividade é a facilidade com que o próprio fluxo da faco os remove: durante a fragmentação nuclear, um coesivo é lavado da câmara e deixa de proteger o endotélio justamente quando a turbulência e a energia ultrassônica mais ameaçam as células.
Dispersivo: reveste e protege, sai difícil
Os viscoelásticos dispersivos, com menor peso molecular ou à base de celulose, têm menor viscosidade a zero cisalhamento e portanto mantêm espaço com menos eficiência. Sua virtude é oposta e complementar: por se fragmentarem e aderirem às superfícies, permanecem revestindo o endotélio mesmo sob o fluxo da faco, formando uma barreira que absorve energia e detritos ao longo de toda a fragmentação. São o agente de proteção endotelial por excelência, especialmente valioso em núcleos densos e em córneas comprometidas. O preço é que a mesma aderência que os mantém no lugar dificulta a remoção completa ao final, aumentando o risco de retenção e de hipertensão ocular no pós-operatório se o cirurgião não for meticuloso na aspiração.
| Propriedade | Coesivo | Dispersivo |
|---|---|---|
| Manutenção de espaço | Alta | Menor |
| Proteção endotelial na faco | Baixa, é lavado | Alta, permanece |
| Remoção ao final | Rápida e completa | Trabalhosa, risco de retenção |
| Melhor momento de uso | Rexe, implante de LIO | Fragmentação, córnea frágil |
A técnica soft-shell: usar a tensão entre os dois a favor
Se um agente mantém espaço e o outro protege, a pergunta natural é por que escolher. A técnica soft-shell, descrita por Steve Arshinoff, responde combinando os dois de forma sequencial e geometricamente organizada. Injeta-se primeiro o dispersivo, que se acomoda contra o endotélio, e em seguida o coesivo por baixo dele, no centro da câmara. O coesivo, ao se expandir, empurra o dispersivo contra a córnea e o mantém aderido, criando duas camadas: uma casca protetora dispersiva junto ao endotélio e um núcleo coesivo central que sustenta o espaço de trabalho. O cirurgião obtém, ao mesmo tempo, a manutenção de espaço do coesivo e a proteção endotelial do dispersivo, cada um fazendo o que sabe fazer melhor.
A evolução dessa ideia, a técnica ultimate soft-shell, refina ainda mais a interface adicionando uma pequena quantidade de solução salina balanceada entre as camadas para modular a dispersão do núcleo coesivo, útil em situações específicas como a rexe de cataratas maduras. O ponto conceitual, porém, permanece o mesmo: não existe o viscoelástico perfeito, existe a combinação certa para cada etapa e cada olho.
Decidir na prática: casar o agente à etapa
A leitura reológica traduz-se em decisões concretas ao longo da cirurgia. Para a capsulorrexe interessa aplanar a cápsula e manter a câmara profunda, terreno do coesivo, como se discute em qualquer análise dos erros que comprometem a rexe. Durante a fragmentação de um núcleo denso, a prioridade é blindar o endotélio, terreno do dispersivo ou da casca soft-shell. No implante da lente, volta a interessar um coesivo que abra o saco capsular e permita o assentamento estável da óptica. E, seja qual for a escolha, a etapa final de remoção do viscoelástico é inegociável: aspirar o material atrás da óptica e nos recessos, porque a retenção é a causa evitável mais comum de pico pressórico na primeira noite.
Em olhos com endotélio já comprometido, como córneas guttata ou distrofia de Fuchs, essa lógica ganha peso clínico direto: a escolha do viscoelástico deixa de ser preferência e passa a ser proteção de um tecido que não se regenera. Nesses casos, a proteção dispersiva ou a técnica soft-shell podem ser a diferença entre uma córnea que clareia em dias e uma que descompensa.
Não existe o melhor viscoelástico, existe o melhor viscoelástico para cada gesto: coesivo para abrir e sustentar, dispersivo para revestir e proteger, e a técnica soft-shell para ter os dois ao mesmo tempo.
Por que o manuseio se aprende com a mão, não só com a leitura
Compreender a reologia é o primeiro passo, mas o comportamento de cada agente só se torna intuitivo com o manuseio. Sentir como um coesivo aprofunda a câmara e depois é lavado pelo fluxo, perceber como um dispersivo resiste à aspiração e exige paciência na remoção, executar as duas injeções da técnica soft-shell na ordem e na geometria corretas, tudo isso é conhecimento tátil que a leitura sozinha não entrega. No centro cirúrgico, esse aprendizado compete com o tempo de sala e com a atenção que o paciente exige.
O treino simulado oferece o espaço para experimentar sem pressa. Com os olhos artificiais Rexis, o residente pratica a injeção do viscoelástico, a manutenção da câmara durante a rexe e a remoção completa ao final, incorporando a lógica de casar o agente à etapa antes de aplicá-la em um olho real. Repetido em sessões curtas, esse manuseio deixa de exigir pensamento consciente e passa a fazer parte do fluxo natural da cirurgia, e o residente chega à sala tratando o viscoelástico como a ferramenta que ele de fato é.
Treine o manuseio antes da sala
Os olhos Rexis permitem praticar a injeção e a remoção do viscoelástico e a manutenção da câmara em casa, no seu ritmo. Toda compra inclui o passo a passo da cirurgia.
Ver os pacotes de olhosReferências e leitura adicional
- Arshinoff SA. Dispersive-cohesive viscoelastic soft shell technique. J Cataract Refract Surg.
- American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course, Lens and Cataract.
- Arshinoff SA, Jafari M. New classification of ophthalmic viscosurgical devices. J Cataract Refract Surg.
- Steinert RF. Cataract Surgery, techniques, complications and management.