Arquitetura da incisão em córnea clara: selagem, astigmatismo e o porquê da válvula autosselante

A incisão em córnea clara costuma ser tratada como o gesto trivial que abre a cirurgia, quando na verdade é uma peça de engenharia biomecânica que decide três desfechos ao mesmo tempo: se a câmara permanece estável durante a faco, quanto astigmatismo o olho vai carregar no pós-operatório e qual o risco de a ferida deixar o meio externo comunicar com o interior do olho. Entender a geometria da incisão é entender por que ela sela sozinha, e por que uma incisão malfeita compromete tudo o que vem depois.

Quando um residente constrói a incisão principal, ele está esculpindo um túnel dentro de um tecido transparente de cerca de meio milímetro de espessura, sem enxergar planos por cor, apenas por profundidade e resistência. Não há margem para improviso. A qualidade desse túnel determina se o cirurgião trabalhará em uma câmara profunda e previsível ou lutará contra vazamento, colapso e prolapso de íris pelo resto do procedimento. Vale a pena, portanto, desmontar a incisão em seus componentes e entender o papel biomecânico de cada um.

Por que a incisão sela sozinha: a lógica da válvula

A selagem de uma incisão em córnea clara bem construída não depende de sutura, depende de física. O princípio é o de uma válvula unidirecional. Quando o túnel tem comprimento suficiente e o teto e o assoalho são planos que se aproximam, a pressão intraocular positiva empurra o teto contra o assoalho, comprimindo os dois lábios da ferida um contra o outro. Quanto maior a pressão interna, mais firme a coaptação. A ferida se fecha justamente porque o olho está pressurizado, e não apesar disso.

Esse comportamento só existe dentro de uma faixa geométrica. Um túnel curto demais não oferece área de contato suficiente para que a pressão coapte os lábios, e a válvula falha. Um túnel longo demais invade o eixo visual, induz pregueamento estromal com distorção óptica durante a cirurgia e dificulta a manipulação dos instrumentos, porque obriga o cirurgião a trabalhar com o punho baixo e comprometer a córnea central. O ponto de equilíbrio, para a maioria das incisões de facoemulsificação atual, situa-se em torno de 1,5 a 2,0 mm de comprimento de túnel, ajustado ao tamanho da lâmina e à largura pretendida.

Os três eixos que você controla

Três variáveis geométricas ficam sob controle direto do cirurgião no momento de construir a incisão, e cada uma tem consequência mensurável.

Largura

A largura da incisão define o calibre do sistema. Ela precisa acomodar a ponta de faco e a luva de irrigação sem estrangulá-las, porque uma incisão apertada demais gera atrito, aquece a ferida e produz a temida queimadura de incisão, que retrai o tecido, impede a coaptação e transforma uma ferida autosselante em uma ferida que exige sutura. Por outro lado, uma incisão larga demais permite fuga excessiva de fluido ao redor da ponta, o que instabiliza a câmara e reduz a eficiência do vácuo. A largura ideal é aquela que veste a ponta com folga mínima, mantendo o fluxo previsível.

Comprimento do túnel

O comprimento é a espinha dorsal da válvula, como já discutido. Vale reforçar um detalhe biomecânico: o que sela não é o comprimento absoluto, é a razão entre comprimento e largura. Uma incisão de 2,4 mm de largura precisa de um túnel proporcionalmente mais longo para selar do que uma incisão de 2,2 mm, porque a área de coaptação precisa vencer uma abertura maior. Ao migrar de uma lâmina para outra, o cirurgião prudente reajusta o comprimento na mesma proporção.

Número de planos

A construção em múltiplos planos é o que confere à ferida sua capacidade de fechar em degraus. A incisão trapezoidal clássica tem três componentes: uma entrada quase perpendicular no epitélio, um túnel estromal paralelo à superfície e uma entrada final na câmara anterior através da membrana de Descemet. Cada mudança de direção cria um degrau que resiste ao refluxo. A entrada em Descemet deve ser limpa e única, porque um retalho de Descemet descolado prejudica a cicatrização e serve de porta para a entrada de fluido do filme lacrimal, hipótese associada ao risco de endoftalmite.

Astigmatismo induzido: a incisão como incisão relaxante

Toda incisão corneana aplana o meridiano em que é feita. Isso é consequência inevitável de seccionar fibras de colágeno tensionadas: o tecido relaxa naquele eixo e a córnea assume uma forma menos curva ali. O efeito é proporcional ao tamanho da incisão e inversamente proporcional à distância dela em relação ao centro óptico. Incisões maiores e mais centrais induzem mais aplanamento; incisões menores e mais periféricas, menos.

A consequência prática é dupla. Primeiro, a migração para incisões cada vez menores nas últimas décadas não foi apenas uma questão de ferida menor, foi uma busca por neutralidade astigmática, porque abaixo de certo calibre o astigmatismo induzido torna-se clinicamente desprezível. Segundo, o eixo de colocação da incisão vira uma ferramenta refrativa. Posicionar a incisão principal sobre o meridiano mais curvo permite usar o aplanamento a favor, reduzindo um astigmatismo preexistente. É a mesma lógica das incisões relaxantes limbares, aplicada de forma oportunista à ferida que a cirurgia já exige.

Erro de construçãoConsequência biomecânica
Túnel curto demaisVálvula ineficiente, vazamento e necessidade de sutura
Túnel longo demaisPregueamento estromal, distorção óptica e manejo difícil
Incisão apertadaAtrito, queimadura de ferida e retração dos lábios
Incisão larga demaisFuga de fluido, câmara instável e perda de vácuo
Retalho de DescemetCicatrização deficiente e porta de entrada para infecção

A paracentese não é detalhe menor

A incisão de serviço, a paracentese, obedece à mesma física em escala reduzida. Ela precisa ser suficientemente longa para não vazar e suficientemente calibrada para acomodar o instrumento da segunda mão sem deixar a câmara esvaziar a cada troca. O posicionamento importa: um ângulo de cerca de sessenta a noventa graus em relação à incisão principal dá ao cirurgião bidestreza real durante a fragmentação nuclear e facilita manobras bimanuais quando algo foge do previsto, como na aspiração de córtex subincisional ou no manejo de uma complicação. A relação entre uma boa paracentese e o controle bimanual aparece com clareza na aspiração de córtex e polimento capsular, etapa em que a geometria das incisões decide o alcance da cânula.

Quando a ferida vira porta de entrada

O elo entre arquitetura da incisão e endoftalmite não é teórico. Uma ferida que não sela permite hidratação insuficiente dos lábios e fluxo bidirecional: sai humor aquoso, entra filme lacrimal contaminado, sobretudo nos primeiros dias, quando a pressão oscila. Por isso a hidratação estromal ao final da cirurgia, injetando soro nos lábios da incisão para induzir edema que aperta a coaptação, e o teste ativo de estanqueidade fazem parte do gesto cirúrgico, não são luxo. A incisão só está pronta quando o cirurgião confirma que ela resiste à pressão fisiológica sem vazar.

Uma boa incisão é invisível no resultado e decisiva no processo: mantém a câmara estável, não deforma a córnea e fecha sozinha porque a própria pressão do olho a comprime.

Por que treinar a incisão em casa muda o começo da cirurgia

A incisão está entre os passos mais difíceis de aprender observando, porque tudo acontece dentro de meio milímetro de estroma transparente e o retorno tátil é sutil. O residente sente a diferença entre atravessar Descemet de forma limpa ou rasgá-la muito antes de conseguir descrevê-la em palavras, e essa sensibilidade só se constrói pela repetição do gesto. No centro cirúrgico, cada tentativa consome tempo de sala e acontece sob os olhos do preceptor e do paciente desperto, o que raramente é o ambiente ideal para experimentar ângulos, profundidades e comprimentos até internalizar a geometria correta.

É aqui que o treino simulado tem peso real. Os olhos artificiais Rexis permitem construir a incisão em córnea clara e a paracentese repetidas vezes, sentindo a resistência dos planos, testando o comprimento do túnel e observando como uma entrada rasa ou profunda demais compromete a selagem, tudo em sessões curtas e sem custo para ninguém. Quando o residente chega à sala, a mão já sabe onde entrar, com que inclinação e por quanto avançar, e a incisão deixa de ser o momento de tensão que atrasa toda a cirurgia.

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Referências e leitura adicional

  1. American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course, Lens and Cataract.
  2. Ernest PH, Lavery KT, Kiessling LA. Relative strength of scleral corneal and clear corneal incisions constructed in cadaver eyes. J Cataract Refract Surg.
  3. Masket S, Belani S. Proper wound construction to prevent short-term ocular hypotony after clear corneal incision cataract surgery. J Cataract Refract Surg.
  4. Steinert RF. Cataract Surgery, techniques, complications and management.

Clear corneal incision architecture: sealing, astigmatism and the logic of the self-sealing valve

The clear corneal incision is often treated as the trivial gesture that opens the surgery, when in reality it is a piece of biomechanical engineering that decides three outcomes at once: whether the chamber stays stable during phaco, how much astigmatism the eye will carry postoperatively, and how great the risk is that the wound lets the outside world communicate with the interior of the eye. Understanding the geometry of the incision means understanding why it seals on its own, and why a poorly built incision compromises everything that follows.

When a resident builds the main incision, they are carving a tunnel inside a transparent tissue about half a millimeter thick, without seeing planes by color, only by depth and resistance. There is no room for improvisation. The quality of that tunnel determines whether the surgeon will work in a deep, predictable chamber or fight leakage, collapse and iris prolapse for the rest of the procedure. It is worth, then, breaking the incision down into its components and understanding the biomechanical role of each one.

Why the incision seals on its own: the valve logic

The sealing of a well-built clear corneal incision does not depend on a suture, it depends on physics. The principle is that of a one-way valve. When the tunnel is long enough and the roof and floor are planes that approach each other, the positive intraocular pressure pushes the roof against the floor, compressing the two lips of the wound against each other. The higher the internal pressure, the firmer the coaptation. The wound closes precisely because the eye is pressurized, not in spite of it.

This behavior only exists within a geometric range. A tunnel that is too short does not offer enough contact area for the pressure to coapt the lips, and the valve fails. A tunnel that is too long invades the visual axis, induces stromal striae with optical distortion during surgery and hinders instrument handling, because it forces the surgeon to work with a low wrist and to compromise the central cornea. The balance point, for most current phacoemulsification incisions, lies around 1.5 to 2.0 mm of tunnel length, adjusted to the blade size and the intended width.

The three axes you control

Three geometric variables are under the surgeon's direct control at the moment of building the incision, and each has a measurable consequence.

Width

The width of the incision defines the caliber of the system. It must accommodate the phaco tip and the irrigation sleeve without strangling them, because an incision that is too tight generates friction, heats the wound and produces the dreaded wound burn, which retracts the tissue, prevents coaptation and turns a self-sealing wound into one that requires a suture. On the other hand, an incision that is too wide allows excessive fluid leakage around the tip, which destabilizes the chamber and reduces the efficiency of the vacuum. The ideal width is the one that fits the tip with minimal clearance, keeping the flow predictable.

Tunnel length

Length is the backbone of the valve, as already discussed. It is worth reinforcing a biomechanical detail: what seals is not the absolute length, it is the ratio between length and width. A 2.4 mm wide incision needs a proportionally longer tunnel to seal than a 2.2 mm one, because the coaptation area has to overcome a larger opening. When moving from one blade to another, the prudent surgeon readjusts the length in the same proportion.

Number of planes

Building in multiple planes is what gives the wound its ability to close in steps. The classic trapezoidal incision has three components: an almost perpendicular entry into the epithelium, a stromal tunnel parallel to the surface, and a final entry into the anterior chamber through Descemet's membrane. Each change of direction creates a step that resists reflux. The entry into Descemet must be clean and single, because a detached Descemet flap impairs healing and serves as a gateway for tear film fluid, a hypothesis associated with the risk of endophthalmitis.

Induced astigmatism: the incision as a relaxing incision

Every corneal incision flattens the meridian in which it is made. This is an inevitable consequence of cutting tensioned collagen fibers: the tissue relaxes along that axis and the cornea takes on a less curved shape there. The effect is proportional to the size of the incision and inversely proportional to its distance from the optical center. Larger and more central incisions induce more flattening; smaller and more peripheral ones, less.

The practical consequence is twofold. First, the shift toward ever smaller incisions over the last decades was not only a matter of a smaller wound, it was a pursuit of astigmatic neutrality, because below a certain caliber the induced astigmatism becomes clinically negligible. Second, the axis of placement of the incision becomes a refractive tool. Positioning the main incision over the steepest meridian lets you use the flattening in your favor, reducing a preexisting astigmatism. It is the same logic as limbal relaxing incisions, applied opportunistically to the wound the surgery already requires.

Construction errorBiomechanical consequence
Tunnel too shortIneffective valve, leakage and need for a suture
Tunnel too longStromal striae, optical distortion and difficult handling
Tight incisionFriction, wound burn and retraction of the lips
Incision too wideFluid leakage, unstable chamber and loss of vacuum
Descemet flapPoor healing and gateway for infection

The paracentesis is no minor detail

The side-port incision, the paracentesis, obeys the same physics on a reduced scale. It must be long enough not to leak and calibrated enough to accommodate the second-hand instrument without letting the chamber empty at every exchange. Positioning matters: an angle of about sixty to ninety degrees relative to the main incision gives the surgeon real bidexterity during nuclear fragmentation and eases bimanual maneuvers when something departs from the expected, such as subincisional cortex aspiration or the management of a complication. The relationship between a good paracentesis and bimanual control appears clearly in cortical aspiration and capsular polishing, a step in which the geometry of the incisions decides the reach of the cannula.

When the wound becomes a gateway

The link between incision architecture and endophthalmitis is not theoretical. A wound that does not seal allows insufficient hydration of the lips and bidirectional flow: aqueous humor goes out, contaminated tear film comes in, especially in the first days, when pressure fluctuates. That is why stromal hydration at the end of surgery, injecting saline into the lips of the incision to induce edema that tightens the coaptation, and an active watertightness test are part of the surgical gesture, not a luxury. The incision is only ready when the surgeon confirms that it resists physiological pressure without leaking.

A good incision is invisible in the result and decisive in the process: it keeps the chamber stable, does not deform the cornea and closes on its own because the eye's own pressure compresses it.

Why training the incision at home changes the start of the surgery

The incision is among the hardest steps to learn by watching, because everything happens within half a millimeter of transparent stroma and the tactile feedback is subtle. The resident feels the difference between crossing Descemet cleanly or tearing it long before being able to describe it in words, and that sensitivity is built only through repetition of the gesture. In the operating room, each attempt consumes theater time and happens under the eyes of the preceptor and an awake patient, which is rarely the ideal setting to experiment with angles, depths and lengths until the correct geometry is internalized.

This is where simulated training carries real weight. Rexis artificial eyes let you build the clear corneal incision and the paracentesis over and over, feeling the resistance of the planes, testing the tunnel length and observing how an entry that is too shallow or too deep compromises the seal, all in short sessions and at no cost to anyone. When the resident reaches the theater, the hand already knows where to enter, at what inclination and how far to advance, and the incision stops being the moment of tension that delays the whole surgery.

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References and further reading

  1. American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course, Lens and Cataract.
  2. Ernest PH, Lavery KT, Kiessling LA. Relative strength of scleral corneal and clear corneal incisions constructed in cadaver eyes. J Cataract Refract Surg.
  3. Masket S, Belani S. Proper wound construction to prevent short-term ocular hypotony after clear corneal incision cataract surgery. J Cataract Refract Surg.
  4. Steinert RF. Cataract Surgery, techniques, complications and management.

Arquitectura de la incisión en córnea clara: sellado, astigmatismo y la lógica de la válvula autosellante

La incisión en córnea clara suele tratarse como el gesto trivial que abre la cirugía, cuando en realidad es una pieza de ingeniería biomecánica que decide tres desenlaces a la vez: si la cámara permanece estable durante la faco, cuánto astigmatismo cargará el ojo en el posoperatorio y cuál es el riesgo de que la herida deje que el medio externo se comunique con el interior del ojo. Entender la geometría de la incisión es entender por qué se sella sola, y por qué una incisión mal hecha compromete todo lo que viene después.

Cuando un residente construye la incisión principal, está esculpiendo un túnel dentro de un tejido transparente de aproximadamente medio milímetro de espesor, sin ver los planos por color, solo por profundidad y resistencia. No hay margen para la improvisación. La calidad de ese túnel determina si el cirujano trabajará en una cámara profunda y previsible o luchará contra la fuga, el colapso y el prolapso de iris durante el resto del procedimiento. Vale la pena, por lo tanto, desglosar la incisión en sus componentes y entender el papel biomecánico de cada uno.

Por qué la incisión se sella sola: la lógica de la válvula

El sellado de una incisión en córnea clara bien construida no depende de una sutura, depende de la física. El principio es el de una válvula unidireccional. Cuando el túnel tiene longitud suficiente y el techo y el suelo son planos que se aproximan, la presión intraocular positiva empuja el techo contra el suelo, comprimiendo los dos labios de la herida uno contra el otro. Cuanto mayor es la presión interna, más firme es la coaptación. La herida se cierra precisamente porque el ojo está presurizado, y no a pesar de ello.

Este comportamiento solo existe dentro de un rango geométrico. Un túnel demasiado corto no ofrece área de contacto suficiente para que la presión coapte los labios, y la válvula falla. Un túnel demasiado largo invade el eje visual, induce estrías estromales con distorsión óptica durante la cirugía y dificulta el manejo de los instrumentos, porque obliga al cirujano a trabajar con la muñeca baja y a comprometer la córnea central. El punto de equilibrio, para la mayoría de las incisiones de facoemulsificación actuales, se sitúa en torno a 1,5 a 2,0 mm de longitud de túnel, ajustado al tamaño de la cuchilla y al ancho deseado.

Los tres ejes que usted controla

Tres variables geométricas quedan bajo control directo del cirujano en el momento de construir la incisión, y cada una tiene una consecuencia medible.

Ancho

El ancho de la incisión define el calibre del sistema. Debe acomodar la punta de faco y la funda de irrigación sin estrangularlas, porque una incisión demasiado apretada genera fricción, calienta la herida y produce la temida quemadura de incisión, que retrae el tejido, impide la coaptación y transforma una herida autosellante en una que exige sutura. Por otro lado, una incisión demasiado ancha permite una fuga excesiva de fluido alrededor de la punta, lo que desestabiliza la cámara y reduce la eficiencia del vacío. El ancho ideal es aquel que viste la punta con una holgura mínima, manteniendo el flujo previsible.

Longitud del túnel

La longitud es la columna vertebral de la válvula, como ya se discutió. Vale la pena reforzar un detalle biomecánico: lo que sella no es la longitud absoluta, es la razón entre longitud y ancho. Una incisión de 2,4 mm de ancho necesita un túnel proporcionalmente más largo para sellar que una de 2,2 mm, porque el área de coaptación tiene que vencer una abertura mayor. Al pasar de una cuchilla a otra, el cirujano prudente reajusta la longitud en la misma proporción.

Número de planos

La construcción en múltiples planos es lo que le da a la herida su capacidad de cerrar en escalones. La incisión trapezoidal clásica tiene tres componentes: una entrada casi perpendicular en el epitelio, un túnel estromal paralelo a la superficie y una entrada final en la cámara anterior a través de la membrana de Descemet. Cada cambio de dirección crea un escalón que resiste el reflujo. La entrada en Descemet debe ser limpia y única, porque un colgajo de Descemet desprendido perjudica la cicatrización y sirve de puerta para la entrada de fluido de la película lagrimal, hipótesis asociada al riesgo de endoftalmitis.

Astigmatismo inducido: la incisión como incisión relajante

Toda incisión corneal aplana el meridiano en el que se hace. Esto es una consecuencia inevitable de seccionar fibras de colágeno tensionadas: el tejido se relaja en ese eje y la córnea adopta una forma menos curva allí. El efecto es proporcional al tamaño de la incisión e inversamente proporcional a su distancia respecto al centro óptico. Las incisiones mayores y más centrales inducen más aplanamiento; las menores y más periféricas, menos.

La consecuencia práctica es doble. Primero, la migración hacia incisiones cada vez menores en las últimas décadas no fue solo una cuestión de una herida más pequeña, fue una búsqueda de neutralidad astigmática, porque por debajo de cierto calibre el astigmatismo inducido se vuelve clínicamente insignificante. Segundo, el eje de colocación de la incisión se convierte en una herramienta refractiva. Colocar la incisión principal sobre el meridiano más curvo permite usar el aplanamiento a favor, reduciendo un astigmatismo preexistente. Es la misma lógica de las incisiones relajantes limbares, aplicada de forma oportunista a la herida que la cirugía ya exige.

Error de construcciónConsecuencia biomecánica
Túnel demasiado cortoVálvula ineficaz, fuga y necesidad de sutura
Túnel demasiado largoEstrías estromales, distorsión óptica y manejo difícil
Incisión apretadaFricción, quemadura de herida y retracción de los labios
Incisión demasiado anchaFuga de fluido, cámara inestable y pérdida de vacío
Colgajo de DescemetCicatrización deficiente y puerta de entrada para infección

La paracentesis no es un detalle menor

La incisión de servicio, la paracentesis, obedece a la misma física a escala reducida. Debe ser lo bastante larga para no filtrar y lo bastante calibrada para acomodar el instrumento de la segunda mano sin dejar que la cámara se vacíe en cada intercambio. La posición importa: un ángulo de unos sesenta a noventa grados respecto a la incisión principal le da al cirujano una bidestreza real durante la fragmentación nuclear y facilita maniobras bimanuales cuando algo se aparta de lo previsto, como en la aspiración de córtex subincisional o en el manejo de una complicación. La relación entre una buena paracentesis y el control bimanual aparece con claridad en la aspiración de córtex y el pulido capsular, etapa en la que la geometría de las incisiones decide el alcance de la cánula.

Cuando la herida se vuelve puerta de entrada

El vínculo entre la arquitectura de la incisión y la endoftalmitis no es teórico. Una herida que no se sella permite una hidratación insuficiente de los labios y un flujo bidireccional: sale humor acuoso, entra película lagrimal contaminada, sobre todo en los primeros días, cuando la presión oscila. Por eso la hidratación estromal al final de la cirugía, inyectando suero en los labios de la incisión para inducir un edema que aprieta la coaptación, y la prueba activa de estanqueidad forman parte del gesto quirúrgico, no son un lujo. La incisión solo está lista cuando el cirujano confirma que resiste la presión fisiológica sin filtrar.

Una buena incisión es invisible en el resultado y decisiva en el proceso: mantiene la cámara estable, no deforma la córnea y se cierra sola porque la propia presión del ojo la comprime.

Por qué entrenar la incisión en casa cambia el inicio de la cirugía

La incisión está entre los pasos más difíciles de aprender observando, porque todo ocurre dentro de medio milímetro de estroma transparente y la retroalimentación táctil es sutil. El residente siente la diferencia entre atravesar Descemet de forma limpia o desgarrarla mucho antes de poder describirla en palabras, y esa sensibilidad solo se construye con la repetición del gesto. En el quirófano, cada intento consume tiempo de sala y ocurre bajo la mirada del preceptor y de un paciente despierto, lo que rara vez es el entorno ideal para experimentar con ángulos, profundidades y longitudes hasta interiorizar la geometría correcta.

Aquí es donde el entrenamiento simulado tiene un peso real. Los ojos artificiales Rexis permiten construir la incisión en córnea clara y la paracentesis una y otra vez, sintiendo la resistencia de los planos, probando la longitud del túnel y observando cómo una entrada demasiado superficial o demasiado profunda compromete el sellado, todo en sesiones cortas y sin costo para nadie. Cuando el residente llega a la sala, la mano ya sabe dónde entrar, con qué inclinación y cuánto avanzar, y la incisión deja de ser el momento de tensión que retrasa toda la cirugía.

Domine la incisión antes de operar

Los ojos Rexis reproducen la construcción de la incisión en córnea clara y de la paracentesis para que usted entrene en casa, a su propio ritmo. Cada compra incluye el paso a paso de la cirugía.

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Referencias y lecturas adicionales

  1. American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course, Lens and Cataract.
  2. Ernest PH, Lavery KT, Kiessling LA. Relative strength of scleral corneal and clear corneal incisions constructed in cadaver eyes. J Cataract Refract Surg.
  3. Masket S, Belani S. Proper wound construction to prevent short-term ocular hypotony after clear corneal incision cataract surgery. J Cataract Refract Surg.
  4. Steinert RF. Cataract Surgery, techniques, complications and management.
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