A fixação no sulco não é um plano B improvisado, é uma técnica com indicação, biomecânica e regras próprias. Tratá-la como um saco capsular substituto, usando a mesma lente e a mesma manobra de inserção, é o erro que mais gera reoperação tardia por descentração, captura pupilar ou inflamação crônica. Entender por que o sulco se comporta de modo diferente do saco é o primeiro passo para dominar essa técnica.

Quando o sulco é a escolha certa

A indicação mais comum é a ruptura de cápsula posterior com rima anterior íntegra e zônula estável no restante da circunferência. Nesse cenário, o saco perdeu a capacidade de sustentar a lente com segurança, mas a rima capsular anterior remanescente ainda oferece um apoio mecânico valioso, desde que a lente certa seja usada e a técnica de captura de óptica, descrita adiante, seja aplicada.

Outra indicação recorrente é a fragilidade zonular identificada antes ou durante a cirurgia, como em pseudoesfoliação avançada, subluxação leve do cristalino ou trauma prévio. Nesses casos, a decisão de operar já nasce com o sulco como plano provável, e o cirurgião se beneficia de escolher a lente correta desde o início em vez de trocar de estratégia no meio do procedimento. Há ainda casos eletivos de reposicionamento, quando uma lente previamente implantada no saco luxa ou descentraliza e precisa ser reposicionada ou substituída no sulco.

Por que a lente do saco não serve para o sulco

O sulco ciliar tem um diâmetro maior que o saco capsular, tipicamente de meio a um milímetro a mais na medida sulco a sulco em relação ao equador do saco. Uma lente dimensionada e projetada para repousar dentro do saco, quando colocada no sulco, fica com as hápticas comprimidas contra uma câmara maior do que aquela para a qual foi desenhada. O resultado é instabilidade, decentração progressiva e, no caso de lentes monobloco de háptica em placa, contato direto e continuado entre a háptica e a face posterior da íris.

Esse contato mecânico repetitivo é justamente o mecanismo da síndrome de uveíte, glaucoma e hifema, mais conhecida pela sigla em inglês UGH. A háptica rígida ou mal dimensionada esfrega a íris a cada movimento ocular, libera pigmento, inflama a câmara anterior e pode sangrar de forma intermitente. Por isso a recomendação técnica é clara: no sulco, a lente deve ser de três peças, com hápticas em fio flexível e diâmetro total maior, nunca uma lente monobloco de háptica em placa desenhada para o saco.

Três peças no sulco versus monobloco no saco

CaracterísticaLente de três peças (sulco)Lente monobloco (saco)
Material da hápticaFio flexível, geralmente PVDF ou polipropilenoPlaca rígida do mesmo acrílico da óptica
Diâmetro total recomendado13,0 a 13,5 mmCerca de 12,5 mm
Contato com a írisPontual, nas extremidades da hápticaExtenso, ao longo de toda a placa
Risco de síndrome UGH se mal indicadaBaixo, quando bem dimensionadaAlto, se implantada fora do saco

A técnica de captura de óptica

Quando a rima anterior da capsulorrexe está íntegra em toda a circunferência, mesmo com o saco comprometido posteriormente, é possível prender a óptica da lente atrás dessa rima enquanto as hápticas permanecem no sulco. Essa manobra, chamada de captura de óptica, combina o melhor dos dois planos: a estabilidade posicional do saco na região da óptica com a segurança mecânica do sulco para as hápticas, que não encontram tecido capsular roto para se apoiar.

A execução exige calma. Depois de posicionar as hápticas no sulco com viscoelástico coesivo preenchendo o espaço, a óptica é gentilmente pressionada através da rima anterior com uma espátula romba, em um movimento simétrico que evita inclinar a lente para um dos lados. A rima precisa ter pelo menos 360 graus de continuidade para que a captura funcione; qualquer entalhe na borda é um ponto de fraqueza que pode progredir sob a pressão do implante.

Cálculo do poder da lente e ajuste para o novo plano

Deslocar a lente do saco para o sulco também desloca o plano efetivo em que a óptica repousa em relação à córnea, tipicamente para mais perto dela. Esse deslocamento anterior reduz discretamente o poder dióptrico necessário para atingir a mesma refração alvo, e a maioria dos cirurgistas experientes aplica um ajuste de aproximadamente meio dioptria a menos no poder da lente quando a fixação sulcal já está prevista no planejamento pré-operatório. Quando a mudança de plano acontece de forma inesperada, no meio da cirurgia, esse ajuste costuma ser feito de memória, o que reforça a importância de conhecer a regra antes de precisar dela sob pressão.

Vale lembrar que esse ajuste é uma aproximação e não substitui o julgamento caso a caso. Olhos com biometria de fronteira, alta miopia axial ou córnea irregular podem se comportar de forma menos previsível, e a conversa franca com o paciente sobre a possibilidade de uma ametropia residual maior nesses cenários é parte da boa prática, especialmente quando a mudança de plano do saco para o sulco não estava no consentimento original.

Erros que levam à complicação tardia

O erro mais frequente é subestimar o diâmetro necessário e implantar uma lente pequena demais para o sulco, o que resulta em descentração progressiva nos meses seguintes conforme o tecido cicatriza de forma assimétrica. Outro erro é confiar em uma rima capsular parcial para captura de óptica: se a continuidade da borda não é clara em toda a circunferência, a captura unilateral tende a inclinar a lente e favorecer o descolamento da óptica em direção ao vítreo.

Também é comum negligenciar a remoção completa do viscoelástico atrás da lente antes de finalizar a cirurgia. No sulco, o espaço potencial atrás da óptica é maior, e viscoelástico retido nessa área eleva a pressão intraocular no pós-operatório imediato com mais frequência do que quando a lente está no saco.

Sulco não é saco maior. É outra biomecânica, outra lente e outra técnica, e tratar os três planos como equivalentes é o que transforma uma complicação intraoperatória bem resolvida em uma reoperação meses depois.

Por que essa decisão precisa ser treinada, não só estudada

A fixação no sulco costuma aparecer pela primeira vez na vida do residente exatamente no pior momento possível: no meio de uma cirurgia que já saiu do previsto, com uma ruptura de cápsula posterior fresca e o restante da equipe aguardando a próxima decisão. Não é o cenário ideal para aprender a diferenciar uma háptica de fio flexível de uma háptica em placa, ou para praticar pela primeira vez o movimento de captura de óptica através da rima.

É por isso que repetir esse gesto fora do centro cirúrgico muda a curva de confiança. Os olhos artificiais Rexis permitem simular uma cápsula posterior rota, manter a rima anterior intacta e treinar a captura de óptica quantas vezes forem necessárias, com a mesma sensação tátil de tração e apoio que o tecido real oferece. Quando a situação aparece de verdade na sala, a mão já reconhece o gesto.

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Referências e leitura adicional

  1. American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course, Lens and Cataract.
  2. Chang DF. Mastering Refractive IOL Surgery and Complex Cataract Cases.
  3. Osher RH. Techniques of anterior capsulorhexis and optic capture in complicated cataract surgery. J Cataract Refract Surg.
  4. Marques FF, Marques DMV. Tópicos de biomecânica capsular aplicada à facoemulsificação.